Crítica

Bouchra (2025) | Crítica

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Marcus Dudeque

· 3 minutos para ler
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Bouchra é uma bela animação que se permite, através do fazer fílmico, explorar as relações familiares de uma coiote queer

Bouchra, uma coiote marroquina de 35 anos em Nova York, documenta seu relacionamento à distância com a mãe, que vive em Casablanca, enquanto exploram juntas o amor, a dor e os segredos que as unem através de ligações e conversas íntimas.

Bouchra é mais um longa na programação do Olhar de Cinema que conversa diretamente com outros filmes do festival e por mais que claramente sofra tecnicamente com o fato de ser uma animação independente de baixo orçamento –– há uma visível economia de planos e a sincronização da boca com as vozes é ruim ––, ainda que a influência disso no resultado final seja mínima: Bouchra é um grande filme. Mais uma vez um personagem principal socialmente marginalizado tem a arte como meio de comunicar seus anseios e desabafos, assim como em Telúrica, a Íntima Utopia e A Holandesinha. A diferença é que aqui tratamos de uma protagonista queer, com dificuldades de trazer esse assunto à tona com sua mãe.

O longa é propositalmente confuso, principalmente no que tange a passagem de tempo e a localização entre Nova York e Casablanca. Não estou falando de algo como Cidade dos Sonhos, de David Lynch, mas algo mais próximo de Conto de Cinema, de Hong Sang-soo. Ainda que estruturalmente sejam filmes muito diferentes, o sentimento ao fim do filme foi muito parecido pra mim. Essa deslocalização temporal e espacial permite às diretoras conduzir com muita destreza esse entrelaçamento entre as histórias de Bouchra e Aïcha.

É difícil falar desse filme sem talvez escorregar em um spoiler ou outro que de fato diminua o impacto da experiência como um todo, mas são muito notáveis as diferenças na retratação Estados Unidos-Marrocos. O uso dos idiomas, dos sotaques, de luz. Não só são lugares naturalmente diferentes, há também um senso estético que os permite serem diferentes na concepção artística. Ao fim do filme tudo isso fica mais evidente, não só com os ambientes, mas com os personagens, as atuações, cenários, enfim… as diretoras sabem trabalhar muito bem com sua premissa e, apesar de sugerir muito claramente o caminho que estão tomando, ainda deixam espaço para a surpresa.

Bouchra é um filme que, em termos de linguagem, entrega muito. Mas também aborda a sexualidade de sua protagonista de forma leve, descontraída e sem tabus. Desde retratar o sexo a abordar a dificuldade de se assumir para a família, é um longa sem vergonha de colocar animais antropomorfizados em situações muito humanas.

Quando todos esses elementos se unem, há um longa de altíssimo nível, capaz de emocionar, fazer rir e criar tensão. Seu final é bem recompensador e, quando você liga os pontos, dá uma sensação muito gostosa. A intercalação das narrativas, da forma que é construída, com abordagens estéticas claramente distintas –– talvez não tão claramente até o fim, o que é ótimo ––, demonstra grande domínio da dupla de diretoras que estream na direção.

Este filme fez parte da Competitiva Internacional do 15º Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, no ano de 2026.

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Bouchra (2025)

Bouchra

Drama

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83 minutos

Direção: Orian Barki, Meriem Bennani

Elenco: Ariana Faye Allensworth, Fayçal Azizi, Orian Barki, Meriem Bennani

Produção: Itália, Marrocs, Estados Unidos

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Sobre Marcus Dudeque

Marcus é fã de cinema e estuda a arte por conta desde 2022, mas ama filmes desde que se entende por gente.