Com uma protagonista magnética que toma todo o filme para si, A Holandesinha é singelo na medida certa
A Holandesinha acompanha Luiza Godoi Acosta, uma jovem com Síndrome de Down que sonha em ser cineasta e realiza seu primeiro curta-metragem, Lágrimas de um Pierrot. O documentário percorre todas as etapas do processo criativo, revelando sua visão de mundo, os desafios enfrentados e as superações diante do capacitismo. Produzido no interior do Paraná, o filme celebra a inclusão e afirma o cinema como espaço de possibilidades, pertencimento e perseverança.
Considero muito fortuito ter assistido a A Holandesinha logo na sequência de Telúrica, a Íntima Utopia. São filmes que conversam muito entre si, mesmo tendo abordagens bastante diferentes. Aqui, João Kowalski constrói o que parece ser um documentário de formato já muito conhecido: os bastidores da produção de um filme. O que o torna tão especial é a presença magnética da diretora e roteirista do filme documentado, Luiza Godoi, que assina a direção em conjunto com João.
É um filme bastante protocolar, que apenas se aproveita da personalidade de sua protagonista e deixa as coisas fluírem a parti daí. Luiza toma o filme para si, mesmo literalmente, se falarmos sobre o curta em produção. Ela é uma pessoa com muitas ideias, muito empolgada e está realizando um sonho. Escala seu melhor amigo no papel de protagonista e faz o filme (quase) completamente do seu jeitinho. O filme até abre espaço para um comentário sobre os perrengues de fazer cinema no Brasil, mencionando muitas vezes custos de diárias, locações, etc, mas isso fica só como um comentário mesmo.
Assim como em Telúrica, A Holandesinha usa a expressão artística como um olho mágico para dentro da cabeça de Luiza. Se sua personalidade era magnética pra quem via o filme, também há mérito da direção em colocar esses momentos em tela. Cada “ação” ou “corta” ditos por Luiza carregavam uma emoção especial. É muito difícil assistir a isso sem sorrir e/ou se emocionar. Para além da parte emocional, A Holandesinha é um filme bastante engraçado e leve. O famoso filme que dá um quentinho no coração em todos os seus aspectos.
Algo que me incomoda um pouco no filme é que Lágrimas de um Pierrot não é um fim –– apesar de encerrar o filme ––, e sim um meio. Consigo entender a decisão, mas se Luiza é a grande estrela, me parecia justo colocar seu filme em foco. Digo isso porque durante o longa, muitos pedaços já prontos do curta foram exibidos, dando pequenos spoilers. O problema aqui, é claro, não se trata de saber a história do filme antecipadamente, mas sim de torná-lo uma experiência especial e única. Não acho que foi falta de sensibilide, somente uma escolha: utilizar o curta de Luiza para construir A Holandesinha e explorar o brilho dela.
O filme tem muitos méritos em como estabelece essa conversa, tanto com Luiza –– que por muitas vezes precisa aceitar que nem tudo vai ser como ela idealizou, tendo que lidar com a frustração ––, quanto com o público. É um documentário que acompanha a produção de um filme e que, apesar de ser tão especial pela presença de Luiza, é tão somente um filme.
Este filme fez parte da mostra Mirada Paranaense do 15º Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, no ano de 2026.
A Holandesinha (2026)
A Holandesinha
Documentário
|90 minutos
Direção: João Gabriel Kowalski, Luiza Godoi
Elenco: Luiza Godoi, João Vitor de Paiva, Monique Aiko, Heloísa Miranda
Produção: Brasil
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Sobre Marcus Dudeque
Marcus é fã de cinema e estuda a arte por conta desde 2022, mas ama filmes desde que se entende por gente.