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Telúrica, a Íntima Utopia (2026) | Crítica

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Marcus Dudeque

· 3 minutos para ler
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Com uma abordagem empática, Telúrica, a Íntima Utopia conversa sobre pessoas em sofrimento psíquico sem estigmas, desbravando as mentes de seus documentados através do teatro

Em São Paulo, a companhia teatral Ueinzz — formada por atores que vivem em sofrimento psíquico — cria uma peça sobre a extinção da Terra e a vontade humana de perdurar. Durante os ensaios, sonhos, palavras e modos de existência emergem como espécies frágeis a serem preservadas. Enquanto atuam, o grupo contempla a sobrevivência, o pertencimento e a preservação contínua de sua própria comunidade.

A primeira passagem de Telúrica, a Íntima Utopia dá a tônica do longa: a câmera está sempre à espera do próximo momento de um membro da companhia brilhar. Mariana Lacerda mantém um nível de sensibilidade muito equilibrado para lidar com seus documentados sem os deixar cair no vale da pena, os colocando em pé de igualdade com quem os assiste, abrindo espaço para a arte enquanto meio de comunicação. Essa desestigmatização permite que o documentário fique mais livre para estabelecer o diálogo com o público pensado inicialmente.

O longa tem sua principal marca na montagem, afinal o filme é organizado de forma alternante, tornando imprescindível um bom trabalho nesse sentido. Ora os artistas são personagens, ora são meros seres humanos. Nessa dualidade é onde reside o coração do filme. Quando os integrantes da Ueinzz estão vivendo seus personagens, a câmera os trata com grandiosidade, reforçando aspectos notoriamente teatrais. Nas passagens “reais” a câmera retoma a sobriedade, para de perseguir o imageticamente belo e busca o singelo. Aqui aparenta cairmos numa contradição, mas é, na realidade, uma complementaridade. São duas abordagens que se alinham na construção de personalidades complexas e altamente ricas, difíceis de serem colocadas em tela de maneira plana. Permitir às pessoas que se expressem artísticamente é lhes dar acesso a um novo meio de comunicação e, portanto, tornar possível a tradução de lugares desconhecidos de suas mentes.

Especialmente os diálogos escolhidos pela diretora ressaltam pontos importantes nessa conversa sobre pessoas atípicas: senso de comunidade, empatia e compreensão. Tudo isso é ilustrado com muito respeito, sem intervenções e com um olhar de curiosidade, acima de tudo. Ouvir Jayme falando sobre filosofia e religião com conhecimento e desenvoltura ímpares é incrível. Mariana Lacerda sabia onde queria chegar com essas passagens, e conseguiu. Nessa espécie de estudo morfológico das personalidades de seus documentados, a diretora os demonstra como formas complexas, cheias de nuances, mas belas e mundanas.

Tudo isso para dizer que o filme tem sucesso em nos colocar nessa posição de curiosidade e empatia, de querer conhecer melhor essas pessoas e de ficar maravilhado com os lugares que elas conseguem chegar. Por fim, é importante responder à pergunta feita pelo próprio filme: o que é Telúrica? Telúrica é a coisa que é da Terra, que tem forte ligação com a natureza e o nosso planeta. Telúrica, a Íntima Utopia é, afinal de contas, bastante telúrico. E isso é bom.

Este filme fez parte da Competitiva Nacional do 15º Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, no ano de 2026.

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Telúrica, a Íntima Utopia (2026)

Telúrica, a Íntima Utopia

Documentário

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104 minutos

Direção: Mariana Lacerda

Elenco: Elisa Band, Jayme Menezes, Peter Pál Pelbart, Valéria Manzalli

Produção: Brasil

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Sobre Marcus Dudeque

Marcus é fã de cinema e estuda a arte por conta desde 2022, mas ama filmes desde que se entende por gente.