Habitando as sombras das luzes projetadas sobre seus temas, Olhe Para Mim usa o terror e a fantasia para contar uma história queer
A mãe de Marcelo desapareceu quando ele tinha 10 anos de idade, deixando nele um vazio sem fim. O menino se tornou um jovem que vaga por cemitérios e se refugia em memórias inventadas para suportar a realidade. Um dia, dois seres misteriosos atravessam seu caminho. Marcelo embarca com uma dupla numa viagem pelas fronteiras entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.
Vejo em Olhe Para Mim um emaranhado de boas ideias, mas principalmente sinto o carinho que Rafhael Barbosa coloca em seu primeiro longa de ficção. Olhe Para Mim é um filme com elementos dos cinemas de terror e fantástico, mas usa as convenções desses gêneros para falar sobre o posicionamento social e transitar pela mente de um jovem queer e traumatizado pelo desaparecimento da mãe.
É chover no molhado dizer que a imagem no cinema é o principal, mas neste longa ela comunica muito. São muitos planos extremamente expressivos, com trabalhos de luz, maquiagem e figurino se complementando para construir momentos extremamente poderosos, dando até certo tom onírico pro filme. Para além de stills muito bonitas, as passagens soam um pouco aleatórias, existem diálogos que não têm intenção de explicar muita coisa e praticamente tudo passa uma sensação meio febril e/ou angustiante. Não entender exatamente o que está acontecendo faz parte do terror que o filme quer causar, apelando mais pra um desconforto que qualquer outra coisa.
Parte relevante da construção de personagem de Marcelo passa pelo encantamento por Ivan. O estranhamento e mistério por trás do jovem e sua mãe despertam curiosidade e, além de chamar a atenção de Marcelo, acaba nos prendendo um pouco mais na cadeira. O desenvolvimento de Ivan enquanto personagem passa muito pela ausência de explicações e, apesar de ser possível concluir algumas coisas com os elementos que o filme entrega sobre a lenda da Coruja Rasga-mortalha, é mais interessante se entregar a esse aspecto mais visceral do desconhecido, ao invés de tentar desvendar os segredos dessa família –– e do próprio filme.
Olhe Para Mim investe nas sombras projetadas pela luz jogada nos seus temas. O filme habita esses espaços mais opacos e esconde seus segredos, tornando a experiência de assistí-lo em algo bastante desconfortável. Rafhael Barbosa aposta na imagem como sua principal arma e expressa através delas aquilo que considera a psique de seu protagonista: jogos de luzes e sombras, closes, matas, rios, estradas. O filme vai passeando por todos esses anseios de Marcelo, e nós como espectadores sentamos, assistimos e nos esforçamos pra acompanhar. Tudo isso é bem arranjado e o filme comunica com destreza aquilo que, provavelmente, passou por muito tempo pela cabeça do próprio diretor –– que disse, durante a apresentação do filme, que esta é uma história que ele criou para ele mesmo quando criança.
Rafhael Barbosa é um homem negro e queer e seu filme, tematicamente, também o é. Para além de trazer essa representatividade, Olhe Para Mim é um filme de gênero, o que causa certa ojeriza do mercado, ainda mais sendo terror. Um filme brasileiro, queer, preto e de terror é um confronto direto ao status quo, e o fato desse filme existir já o torna extremamente importante. Mas não bastasse isso, é uma história interessante e muito bem contada.
Este filme fez parte da Competitiva Nacional do 15º Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, no ano de 2026.
Olhe Para Mim (2026)
Olhe Para Mim
Terror
|89 minutos
Direção: Rafhael Barbosa
Elenco: Rejane Faria, Ulisses Arthur, Luciano Pedro Jr., Aura do Nascimento
Produção: Brasil
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Sobre Marcus Dudeque
Marcus é fã de cinema e estuda a arte por conta desde 2022, mas ama filmes desde que se entende por gente.