Perdido em sua concepção, Yellow Cake gera sentimentos confusos, para o bem ou para o mal
Na cidade de Picuí, no Brasil, um grupo de cientistas tenta erradicar o mortal mosquito Aedes aegypti — transmissor da dengue — por meio de um experimento utilizando urânio. Quando o plano fracassa e o caos se instala, uma cientista brasileira determinada, com a ajuda de mineradores locais, precisa deter a catástrofe antes que seja tarde demais.
A sinopse de Yellow Cake, num primeiro momento, faz parecer que o filme é uma ficção científica que vai direto ao ponto. Talvez a grande sacada do filme seja justamente não se prender a um único gênero e explorar outras possibilidades –– como o suspense e o terror ––, mas de onde vem sua principal virtude é onde as coisas acabam por desandar. Essa indefinição quanto ao que o filme pretende ser o coloca numa posição de risco, afinal é muito fácil cair em armadilhas narrativas que tornam o filme confuso pelo excesso de elementos –– e é exatamente o que acontece em Yellow Cake.
Excesso é o que conduz a narrativa. Pode parecer contraditório dizer que um filme que se explica tão pouco peca pelo excesso, mas em contrapartida a um roteiro que pouco expõe, há um diretor que muito demonstra através de outros elementos. Quando falo dos excessos, penso principalmente em todas as cenas em que há uma dramatização exacerbada: zooms, closes, distorções, câmera lenta, câmera instável, ao ponto de fazer os mosquitos parecerem grandes vilões, o que, honestamente, não parece ser o caso. É difícil ver uma cena “sóbria”. E, é claro, isso passa longe de ser um problema quando analisado individualmente, mas tudo soa muito relevante pra história, e se o filme pouco expõe suas entranhas, como tantos elementos têm tanta importância? Quando coloca os estímulos visuais e sonoros de lado, Tiago Melo encontra momentos bonitos e divertidos. Seja de Rúbia com sua companheira ou as maravilhosas linhas de diálogo de Dona Rita, brilhantemente interpretada pelo queridíssima Tânia Maria. Mas isso é exceção em meio ao caos que o diretor propõe.
O andamento da história é bastante confuso, a montagem não contribui em nada com isso: as sequências são mal encaixadas, acabam deslocalizando no espaço e no tempo –– e, apesar de não considerar impossível ser de propósito, não deixa de ser ruim. E isso, novamente, está ligado ao excesso. São muitas passagens curtas totalmente deslocadas, que mais bagunçam e tiram o foco do que de fato contribuem com a coesão do longa. Pelo menos na primeira metade do filme é assim. Na segunda, após o acidente nuclear, o filme parte para uma atmosfera mais mística. Entre aparições fantasmagóricas e uma simbologia talvez religiosa ou cósmica, a história entra de cabeça no sobrenatural e vira um grande fluxo de sensações, de praticamente nenhum diálogo, apenas som alto e imagens coloridas. Apesar da condução até esse momento ser de toda caótica –– infelizmente no mau sentido ––, o filme encontra aqui sua melhor forma. Continuo não achando uma grande conclusão, mas as coisas pelo menos soam mais coerentes.
Yellow Cake se perde em não assumir a sobrenaturalidade intrínseca à sua concepção. O aceno à ficção científica acaba mais por atrapalhar os objetivos de Tiago Melo do que de fato contribuir pra construção de uma grande história. O pecado pelo excesso faz da confusão a força motriz do longa, mesmo quando isso significa tornar a experiência de assistí-lo meio desagradável, até o momento em que se encontra e consegue, até certo ponto, construir uma unidade.
Mesmo assim, é sempre importante ver um filme de gênero nacional ocupando espaços relevantes –– além de abrir o Olhar de Cinema, o filme também foi exibido no festival de Rotterdam. Esse é somente o segundo longa de Tiago Melo, seu primeiro, Azougue Nazaré, foi lançado 8 anos atrás.
Este foi o filme de abertura do 15º Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, no ano de 2026.
Yellow Cake (2026)
Yellow Cake
Sci-Fi
|97 minutos
Direção: Tiago Melo
Elenco: Rejane Faria, Tânia Maria, Allii Willow, Valmir do Côco, Spencer Callahan
Produção: Brasil
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Sobre Marcus Dudeque
Marcus é fã de cinema e estuda a arte por conta desde 2022, mas ama filmes desde que se entende por gente.